O indivíduo humano possui uma série de necessidades que devem ser satisfeitas: alimentação, proteção, moradia, roupas, afetividade, etc. Sendo que, no mundo contemporâneo, todas estas necessidades estão relacionadas, de uma ou outra forma, com as necessidades de cunho financeiro, ou seja, com a obtenção de trabalho e dinheiro. No entanto, nem sempre o homem foi tão dependente do trabalho quanto hoje, e como este é hoje.Na Roma antiga, a vida se dava mais ou menos da seguinte forma: o jovem varão acompanhava o pai no trabalho da terra, no foro ou na guerra, enquanto as filhas ficavam junto a mãe ajudando-a nas lides domesticas. Era assim que eles aprendiam a desempenhar uma diversidade de funções necessárias a satisfação de suas necessidades.
Na idade média esta tradição se manteve, com a diferença de que os filhos após os sete ou nove anos de idade eram enviados para o seio de outras famílias para fim de serem educados. Isso por que, acreditava-se na época que os laços afetivos familiares tornavam o ambiente familiar inadequado a aquisição de determinados atributos, tais como a autodisciplina. Esta espécie de intercâmbio familiar se dava de maneira bastante característica nas aprendizagem artesanais. O mestre artesão escolhia um certo número de aprendizes, os quais, deveriam servi-lo não apenas nas tarefas do ofício, mas também no conjunto de tarefas da vida doméstica. O mestre deveria ensinar-lhes todos os segredos de sua arte, e também, alimentá-los, vesti-los, e dar-lhes uma formação moral e religiosa.
“Assim, o serviço doméstico confunde-se com a aprendizagem, forma muito geral da educação. A criança aprendia por meio da prática, e esta prática não se detinha nos limites de uma profissão, pois não havia então, nem houve por muito tempo, limites entre a profissão e a vida privada (...). Assim, é por meio do serviço doméstico que o mestre transmitirá a uma criança, e não à sua, mas à de outro, a bagagem de conhecimentos, a experiência prática e o valor humano dos que se lhe supõe em possessão”. (Ariés, 1973:255)
Na idade média, havia também uma grande número de indivíduos apartados das relações dominantes de produção, que eram: mendigos, vagabundos, órfãos, etc. Estes indivíduos causavam uma grande preocupação de ordem pública:
(...) porque é certo que ao se remediar estas crianças perdidas põe-se obstáculo aos latrocínios, delitos graves, e enormes, que por se criarem livres e sem dono, aumentam, porque se tendo criado em liberdade de necessidade hão de ser gente indomável, destruidora do bem público, corrompedora dos bons costumes, contaminadora das gentes e povos. (Varela, 2002.)
Com o desenvolvimento das manufaturas estas crianças passaram a ser vistas como mão de obra barata, e, posteriormente, como mão de obra que necessita de um certo disciplinamento. Assim, no século XVIII, Orfanatos e casas de trabalho chegaram ao auge do internamento e disciplinamento destas crianças. Mas, logicamente que as crianças pobres não poderiam ficar de fora de tal movimento, para fim de também receberem alguma instrução, e, serem submetidas a muitas horas de trabalho. Assim foi que se iniciou a tal educação para o povo, cujo verdadeiro objetivo era garantir o poder da burguesia, e reduzir o da igreja.
“(...) Não que as escolas tivessem sido criadas necessariamente com este propósito, nem que já não pudessem ou fossem deixar de cumprir outras funções: simplesmente estavam ali e se podia tirar bom partido delas”. (Enguita, 1989)
No século XIX entra em pauta o discurso da eficiência e das tecnologias, em que o indivíduo deveria receber instrução atualizada para servir da melhor forma possível a sua comunidade, e principalmente as empresas e empresários. Os indivíduos deveriam dominar uma série de conhecimentos e habilidades para lidar com uma sociedade que agora se fazia totalmente urbanizada e industrializada.
E, finalmente, de volta tempos de hoje, percebe-se que a guerra invisível iniciada pelo capitalismo, continua em vigor. Bombardeando a todos, em todos os sentidos, - inclusive os sensoriais - com suas propagandas ideológicas de cunho consumista, comodista, imediatista, individualista, etc.
Os indivíduos de hoje continuam tendo as mesmas necessidades: alimentação, proteção, moradia, roupas, afetividade, etc. No entanto, atualmente, estes não mais aprendem, nem na família, nem em outras famílias, nem em orfanatos, nem em igrejas e muito menos nas escolas, como devem proceder para manter todas as suas necessidades satisfeitas. E, muito menos são capazes obter a saciação, a paz, e a felicidade que o consumismo sempre prometeu, mas que nunca teve a capacidade de cumprir de forma adequada; e ainda, sem gerar esta ampla gama de infortúnios, cujo mais nefasto deles, será um aterrador cataclismo, o qual, graças a “ignorância dos mais fortes”, e a “confusão dos mais fracos”, já se encontra inevitavelmente encomendado.
Referências:
ARIÈS, Phillippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
ENGUITA, Mariano Fernandez. A face oculta da escola: educação e trabalho no capitalismo. Porto alegre: Artes médicas, 1989.
MATURANA, H & VARELA, F. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. 2ª ed. São Paulo: Palas Athena, 2002.


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